JBS volta atrás e diz que plano de zerar emissões de gases de efeito estufa “nunca foi promessa”

Geral

A JBS, maior produtora de carnes do mundo, assumiu, em 2021, o compromisso de zerar suas emissões de gases de efeito estufa até 2040 e de erradicar o desmatamento ilegal em sua extensa cadeia de fornecimento, que se inicia no coração da Amazônia. A companhia, que possui três unidades em Mato Grosso do Sul – uma em Naviraí e duas em Campo Grande –, investiu R$ 150 milhões, em 2024, para duplicar a capacidade de produção da unidade Campo Grande II, tornando-a a maior unidade de processamento de bovinos da América Latina.

Em seus comunicados a investidores e em campanhas publicitárias, a JBS utilizou termos como “compromisso” e “promessa”, além de um slogan afirmando que “nada menos do que isso não é uma opção”, em relação à sua meta de neutralizar as emissões de gases de efeito estufa até 2040.

Contudo, quase quatro anos depois, Jason Weller, diretor global de sustentabilidade da empresa, afirmou em entrevista à Reuters que essa meta era, na verdade, apenas uma “aspiração”. Segundo ele, a empresa nunca considerou essa meta como uma promessa formal e destacou que não possui controle sobre as práticas das fazendas, embora incentive mudanças voluntárias. Em 2021, a JBS havia se comprometido a eliminar o desmatamento ilegal na Amazônia proveniente de seus fornecedores de gado até 2025.

Após a entrevista, a JBS se manifestou por meio de uma resposta escrita à Reuters, reafirmando que suas “ambições climáticas não mudaram”, e rejeitou qualquer alegação de que a empresa teria recuado em relação aos compromissos assumidos.

Entretanto, ainda segundo a Reuters, nos últimos cinco anos, investidores tiveram poucos resultados concretos em relação às promessas feitas pela empresa. Poucas propostas relacionadas ao meio ambiente foram apresentadas, e o ativismo acionário em torno de questões ambientais foi quase inexistente. Ao mesmo tempo, os lucros da JBS dispararam, impulsionados pela forte demanda por carne, o que levou as ações da companhia a atingirem recordes históricos em São Paulo no mês passado.

O desmatamento impulsionado pela pecuária na Amazônia aproxima a região de um ponto crítico, no qual a maior floresta tropical do mundo pode deixar de ser um sumidouro de carbono. De acordo com pesquisadores, os pecuaristas brasileiros são responsáveis por 80% do desmatamento atual na Amazônia.

A dificuldade de reduzir os impactos ambientais da JBS e de outras empresas do setor agropecuário pode prejudicar as negociações climáticas globais que o presidente Lula se prepara para sediar em novembro.

Grandes petroleiras, como Shell e BP, também suavizaram suas promessas climáticas. Vemund Olsen, analista sênior de investimentos sustentáveis da Storebrand Asset Management, sediada na Noruega, apontou que poucos investidores têm utilizado sua influência acionária para pressionar essas empresas a avançarem em questões ambientais. “A indústria precisa encontrar soluções comuns, além de exigir uma melhor regulamentação e aplicação da legislação em países como o Brasil”, afirmou Olsen.

Em outubro, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), multou fazendas e frigoríficos, incluindo a JBS, por adquirirem gado proveniente de terras ilegalmente desmatadas na Amazônia.

Ativistas ambientais estimam que 97% das emissões da JBS vêm de gases de efeito estufa associados ao desmatamento, perda de biodiversidade e poluição.